Homilia - Pro Eligendo 08/09
Neste momento de grande responsabilidade, escutamos com profunda atenção as palavras do Senhor, as quais Ele nos comunica em Suas próprias palavras. Quero destacar trechos das três leituras que têm relevância direta para esta ocasião.
A primeira leitura apresenta uma visão profética do Messias, cujo significado pleno foi revelado por Jesus quando Ele o leu na sinagoga de Nazaré e declarou: "Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura" (Lc 4, 21). No centro dessa profecia, encontramos uma palavra aparentemente contraditória. O Messias se descreve como aquele enviado "para proclamar o ano da misericórdia do Senhor, um dia de vingança para o nosso Deus" (Is 61, 2). Celebramos a alegria da misericórdia, pois a misericórdia divina limita o mal. Encontrar Cristo é encontrar a misericórdia de Deus, e nosso chamado é proclamar a misericórdia através dos sacramentos e da vida. Mas o que Isaías quis dizer com o "dia da vingança para o nosso Deus"?
Quando Jesus leu esse texto em Nazaré, Ele não mencionou as palavras sobre vingança; em vez disso, Ele anunciou o ano da misericórdia. Será que essa diferença causou escândalo? Não sabemos ao certo, mas o Senhor ofereceu uma interpretação autêntica por meio de Sua morte na cruz. Ele levou o peso do mal e o transformou em sofrimento pelo Seu amor sacrificial. O dia da vingança e o ano da misericórdia se encontram no mistério pascal, na pessoa de Cristo morto e ressuscitado. Esta é a vingança de Deus: Ele mesmo sofre por nós. Quanto mais abraçamos a misericórdia do Senhor, mais nos unimos ao Seu sofrimento, completando o que falta aos sofrimentos de Cristo.
A segunda leitura, da carta aos Efésios, aborda três temas: os ministérios e dons na Igreja, o crescimento na fé e no conhecimento de Cristo como base para a unidade, e a participação comum na transformação do mundo através da comunhão com o Senhor.
Destaco dois pontos. Primeiro, o caminho em direção à "maturidade de Cristo", que significa crescer na fé e não permanecer como crianças na fé, sujeitas a ventos de doutrina. Devemos buscar uma fé madura, enraizada em Cristo, que nos dê discernimento entre verdade e erro.
Segundo, a amizade com Cristo, que Ele descreve como ser Seus amigos. Esta amizade envolve confiança, compartilhamento e comunhão de vontades. Devemos responder a essa amizade com amor e obediência à vontade de Deus.
Falemos agora do Evangelho, de cuja riqueza gostaria de extrair só duas pequenas observações. O Senhor dirige-nos estas maravilhosas palavras: "Já não vos chamo servos... mas a vós chamei-vos amigos" (Jo 15, 15). Muitas vezes sentimos que somos como é verdade unicamente servos inúteis (cf. Lc 17, 10). E, não obstante, o Senhor chama-nos amigos, torna-nos seus amigos, oferece-nos a sua amizade. O Senhor define a amizade de uma dupla forma. Não existem segredos entre amigos: Cristo diz-nos tudo quando ouve o Pai; oferece-nos a sua plena confiança e, com a confiança, também o conhecimento. Revela-nos o seu rosto, o seu coração. Mostra-nos a sua ternura por nós, o seu amor apaixonado que vai até à loucura da cruz. Confia-se a nós, dá-nos o poder de falar com o seu eu: "este é o meu corpo...", "eu te absolvo...". Confia o seu corpo, a Igreja, a nós. Confia às nossas mentes débeis, às nossas mãos débeis a sua verdade o mistério do Deus Pai, Filho e Espírito Santo; o mistério do Deus que "tanto amou o mundo, que lhe entregou o seu Filho Unigénito" (Jo 3, 16). Fez de nós amigos seus e nós como respondemos?
O segundo elemento, com que Jesus define a amizade, é a comunhão das vontades. "Idem velle idem nolle", era também para os Romanos a definição de amizade. "Vós sois meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando" (Jo 15, 14). A amizade com Cristo coincide com o que exprime a terceira pergunta do Pai Nosso: "seja feita a tua vontade assim na terra como no céu". Na hora do Getsémani Jesus transformou a nossa vontade humana rebelde em vontade conforme e unida à vontade divina. Sofreu todo o drama da nossa autonomia e precisamente levando a nossa vontade às mãos de Deus, oferece-nos a liberdade verdadeira: "Não como eu quero, mas segundo a tua vontade (Mt 21, 39). Nesta comunhão da vontade realiza-se a nossa redenção: ser amigos de Jesus, tornar-nos amigos de Deus. Quanto mais amamos Jesus, quanto mais o conhecemos, tanto mais cresce a nossa verdadeira liberdade, cresce a alegria de ser remidos. Obrigado Jesus, pela tua amizade!
O outro elemento do Evangelho que desejo mencionar é o sermão de Jesus sobre o dar fruto: "fui eu que vos escolhi a vós e vos destinei a ir e a dar fruto, e fruto que permaneça" (Jo 15, 16).
Realça aqui o dinamismo da existência do cristianismo, do apóstolo: constituí-vos para irdes...
Devemos estar animados por uma santa preocupação: a preocupação de levar a todos o dom da fé, da amizade com Cristo. Na verdade, o amor, a amizade de Deus foi dada para que chegue também aos outros. Recebemos a fé para a levar aos outros somos sacerdotes para servir os outros. E devemos levar um fruto que permaneça. Todos os homens querem deixar vestígios duradouros. Mas o que permanece? O dinheiro não. Também os edifícios não permanecem; os livros também não. Depois de um certo tempo, mais ou menos longo, todas estas coisas desaparecem. A única coisa que permanece eternamente, é a alma humana, o homem criado por Deus para a eternidade. O fruto que permanece é portanto quanto semeámos nas almas humanas o amor, o conhecimento; o gesto capaz de tocar o coração; a palavra que abre a alma à alegria do Senhor. Então vamos rezar ao Senhor, para que nos ajude a dar fruto, um fruto que permaneça. Só assim a terra será mudada de vale de lágrimas para jardim de Deus.
Por fim, voltemos mais uma vez à carta aos Efésios. A carta diz com as palavras do Salmo 68 que Cristo, subindo ao céu, "deu dádivas aos homens" (Ef 4, 8). O vencedor distribui dons. E estes dons são apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres. O nosso ministério é um dom de Cristo aos homens, para construir o seu corpo o mundo novo. Vivamos o nosso ministério assim, como dom de Cristo aos homens!
Oremos ao Senhor para que, após o presente Papa Estevão, nos conceda um pastor que nos guie no conhecimento de Cristo, em Seu amor e na verdadeira alegria. Amém.
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